A crise envolvendo a Aegea Saneamento deixou de ser apenas assunto do mercado financeiro. Depois da divulgação de inconsistências bilionárias no balanço da empresa e do desgaste causado por investigações e acordos de leniência revelados nacionalmente, uma pergunta inevitável começou a surgir também no Piauí: o que os municípios podem esperar daqui para frente?
A pergunta é legítima.
Nos últimos anos, o estado decidiu apostar em um novo modelo para o saneamento. A antiga estrutura da Agespisa já não conseguia responder às demandas históricas do interior. Faltava investimento. Faltava expansão. Faltava eficiência. Em muitos municípios, a população convivia com interrupções frequentes no abastecimento e ausência quase total de esgotamento sanitário.
A concessão apareceu como solução.
O discurso era forte: investimento bilionário, modernização, metas de universalização e promessa de levar água tratada e saneamento a regiões historicamente esquecidas.
Mas contratos de 35 anos não podem ser avaliados apenas pelo entusiasmo político do momento em que são assinados. Eles precisam resistir ao tempo. E principalmente às crises.
É exatamente isso que agora começa a preocupar parte da população, lideranças políticas e gestores municipais.
Afinal, quando uma empresa responsável pela gestão da água de praticamente todo um estado passa a enfrentar dificuldades financeiras, questionamentos contábeis e desgaste institucional, a preocupação deixa de ser ideológica. Ela passa a ser prática.
Porque água não é um serviço qualquer.
Quando falta energia, ainda existe gerador. Quando cai internet, existe rede móvel. Mas quando falta água, a rotina inteira para. Hospital sofre. Escola sente. Comércio sente. A população inteira sente.
E o contrato continua existindo.
Talvez esse seja um dos pontos menos debatidos até agora no Piauí. Muitos prefeitos que aderiram ao modelo já não estarão mais nos cargos quando grande parte dos impactos da concessão aparecer de forma concreta. Mas os municípios continuarão vinculados ao contrato firmado.
E isso exige fiscalização permanente.
O debate sério nunca deveria ser simplesmente “ser contra ou a favor da privatização”. Essa é uma discussão rasa para um tema profundo. A verdadeira pergunta é outra: o estado e os municípios construíram mecanismos suficientes para garantir controle, transparência e proteção da população ao longo dessas décadas?
Essa resposta ainda parece distante.
Nos últimos meses, começaram a surgir relatos de reclamações em algumas cidades do interior envolvendo abastecimento irregular, demora em respostas e dificuldades operacionais. Em alguns locais, vereadores passaram a cobrar explicações. Em outros, o assunto chegou ao Ministério Público.
Nada disso, sozinho, significa fracasso do modelo.
Mas significa algo importante: a fase da propaganda acabou. Agora começa a fase da cobrança.
E talvez o maior erro seja imaginar que uma mudança dessa dimensão produziria resultados automáticos em poucos meses. Saneamento é estrutura pesada. Exige investimento contínuo, planejamento técnico e estabilidade financeira. Quando qualquer um desses pilares sofre abalo, o impacto aparece diretamente na ponta: na casa do cidadão.
Existe ainda um debate que o Piauí talvez tenha feito pouco até agora. Ao aderirem ao modelo regionalizado, muitos municípios abriram mão de parte da autonomia sobre um serviço essencial ligado diretamente ao interesse local.
Na prática, pequenos municípios passaram a depender de decisões tomadas dentro de uma estrutura empresarial gigantesca, com atuação nacional e contratos bilionários.
Isso cria desequilíbrio.
E quanto maior o desequilíbrio, maior precisa ser a fiscalização pública.
A crise nacional da Aegea talvez não represente, necessariamente, uma crise imediata no saneamento do Piauí. Mas ela serve como alerta. Serve para lembrar que promessas de investimento precisam ser acompanhadas de vigilância institucional constante.
Porque no fim das contas, a população não quer discutir balanço financeiro, mercado ou classificação de risco.
A população quer abrir a torneira e ter água.
E é exatamente aí que qualquer modelo, público ou privado, começa de verdade a ser julgado.
