📰 Uma política sem salário: solução ou risco para a democracia municipal?

Fonte: Unsplash

Uma proposta que pretende extinguir os salários de vereadores em municípios de pequeno porte reacendeu um debate sensível no cenário político do Piauí.

A medida, apresentada por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição, pode atingir cerca de 87% das cidades do estado, alterando significativamente a estrutura das câmaras municipais.

Embora a ideia encontre apoio em um cenário de insatisfação com a política, também levanta questionamentos importantes sobre seus efeitos práticos e institucionais.

A medida, que pode atingir a maioria das cidades brasileiras — especialmente aquelas com menor população — surge em meio a um cenário de desgaste da classe política e de forte apelo por redução de gastos públicos.

A Constituição Federal, ao tratar da organização dos municípios, não apenas reconhece a figura do vereador, como também estrutura sua atuação dentro de um sistema que busca equilíbrio entre os poderes.

O art. 29, inciso VI, ao disciplinar a remuneração dos vereadores, não o faz por acaso. A previsão não é um benefício isolado, mas um mecanismo que viabiliza o exercício da função pública de forma contínua, independente e acessível.

A proposta partiu do deputado federal Amom Mandel e já começa a ganhar repercussão em todo o país.

Trata-se de uma Proposta de Emenda à Constituição que pretende extinguir os salários de vereadores em municípios com até 30 mil habitantes, substituindo a remuneração fixa por uma ajuda de custo por sessão. Na prática, o vereador deixaria de ser um agente político com dedicação contínua e passaria a atuar de forma mais pontual, quase como um conselheiro.

A ideia, no papel, parece simples: reduzir gastos públicos e responder ao sentimento crescente de insatisfação com a política.

Mas é justamente aí que o debate precisa ser aprofundado.

A proposta, portanto, não mexe apenas em valores.

Ela altera a lógica do sistema.

Entre os argumentos favoráveis, há um apelo forte: economia de recursos, redução de gastos e incentivo a uma política mais “vocacional”. Em um país marcado por escândalos e desgaste institucional, esse discurso encontra eco com facilidade.

Mas o problema da política brasileira dificilmente se resolve com cortes lineares.

Do outro lado, surgem preocupações que não podem ser ignoradas.

Sem remuneração, o acesso ao cargo tende a se restringir. Quem depende do exercício da função para sobreviver fica, na prática, afastado. A política passa a ser ocupada, majoritariamente, por quem já possui estabilidade financeira.

Isso não reduz desigualdade.

Amplia.

Além disso, há um risco evidente de enfraquecimento da independência do mandato.

Sem remuneração, o vereador pode se tornar mais vulnerável a influências externas, interesses paralelos e vínculos indiretos. E quando a independência se fragiliza, a função fiscalizatória também perde força.

O impacto deixa de ser econômico e passa a ser institucional.

Esse entendimento, inclusive, já começa a ser externado por entidades representativas. A Associação dos Vereadores do Piauí (AVEP) classificou a proposta como um possível “retrocesso democrático”, destacando o risco de enfraquecimento do Legislativo municipal e de concentração de poder no Executivo.

E aqui a discussão deixa de ser apenas financeira.

Passa a ser estrutural.

Quando se traz esse debate para a realidade do Piauí, o cenário ganha ainda mais relevância.

Segundo dados do IBGE, a maioria dos municípios piauienses possui população inferior a 30 mil habitantes — o que significa que seriam diretamente atingidos pela proposta.

No sul do estado, especialmente na região do Gurgueia, esse impacto é ainda mais evidente.

Municípios como:

  • Currais (aproximadamente 4,8 mil)
  • Palmeira do Piauí (cerca de 4,9 mil)
  • Redenção do Gurguéia (em torno de 8 mil)
  • Colônia do Gurguéia (cerca de 6 mil)

estariam integralmente inseridos nessa nova lógica.

E aqui surge a pergunta que realmente importa:

quem continuará ocupando esses espaços?

Em cidades pequenas, onde a política já enfrenta desafios estruturais, retirar a remuneração pode significar reduzir ainda mais a participação popular. O cidadão comum, que vive do trabalho diário, dificilmente terá condições de exercer um mandato sem qualquer garantia financeira.

A consequência é previsível:

menos diversidade
menos representatividade
menos controle

A discussão, portanto, não deveria se limitar à economia.

Ela deveria considerar o funcionamento real das instituições.

A Constituição não organiza apenas cargos.

Ela busca preservar o equilíbrio democrático.

E qualquer alteração nesse equilíbrio exige mais do que boa intenção ou apelo popular. Exige responsabilidade com as consequências.

No fim, a questão não é apenas saber quanto custa a política.

É entender quanto custa enfraquecê-la.

A proposta, que tramita em nível nacional, pode atingir a maioria dos municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte, ao substituir o modelo atual de remuneração por um sistema de ajuda de custo por sessão, alterando não apenas o custo da política, mas sua própria estrutura.

No fim, a pergunta que permanece é simples, mas decisiva:

Estamos tornando a política mais eficiente…

ou apenas mais restrita?

Klécio Robert
Advogado, consultor jurídico e comunicador e analista de temas jurídicos e sociais
Bom Jesus – Piauí

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