O Mundial volta, mas o que ficou guardado dentro de cada um de nós é o que realmente importa
A bola ainda não rolou e já dói um pouquinho no peito. Não de ansiedade — de saudade. Saudade de um tempo em que a Copa parava o Brasil de um jeito que nada mais conseguia.
Os tempos mudaram. O futebol mudou. E nós, que crescemos amarrando a esperança na camisa verde e amarela, também não somos mais os mesmos. Mas basta o apito inicial soar para alguma coisa lá dentro se mexer — e a gente perceber que certas coisas não têm cura.
Eu me lembro da minha avó. A querida Mainha. Flamenguista de coração e torcedora fervorosa da Seleção. Quando o jogo apertava e o Brasil não achava o caminho, ela não ficava só na torcida — ela agia. Um dos rituais mais famosos era amarrar as pernas das cadeiras da casa. Segundo ela, se as pernas das cadeiras ficassem presas, as pernas dos adversários também ficariam. Era impossível não rir. Mas, ao mesmo tempo, era impossível não acreditar um pouquinho.
Cada família tinha seus rituais. Cada casa, sua história. Os mais antigos lembram de Pelé. Outros carregam Zico, Sócrates e Falcão tatuados na memória. Tem quem jamais esqueça Romário em 1994 ou Ronaldo Fenômeno erguendo a taça em 2002. E tem quem ainda sinta o peso das eliminações que vieram depois — porque Copa do Mundo é isso: uma mistura improvável de paixão, superstição, esperança e cicatriz.
Só que tem mais. O Brasil de 2026 entra nessa Copa sem o peso sufocante do favoritismo absoluto — e talvez isso seja exatamente o que a gente precisava. As maiores campanhas brasileiras nasceram justamente quando a desconfiança falava mais alto que a certeza. Existe talento no elenco. Existe tradição. A camisa amarela ainda é respeitada em qualquer vestiário do mundo. Mas o futebol europeu encurtou distâncias, Argentina chega com moral de campeã, França tem uma geração assustadora, e ninguém chega fácil em nenhuma fase dessa Copa.
“O Brasil tem tudo para surpreender quando ninguém espera. A história mostra que a Seleção rende mais sob pressão do que sob pedestal”, diz o historiador do esporte Marcelo Tavares, pesquisador de cultura futebolística da Universidade de Brasília.
Minha expectativa é simples. Quero ver uma Seleção que honre a camisa. Que jogue com coragem. Que faça o torcedor voltar a sentir orgulho — não só resultado, mas identificação. Ganhar a Copa seria magnífico. Mas reconquistar o coração de quem se afastou talvez valha mais do que qualquer troféu.
Acredito que o Brasil chega entre os quatro melhores. A partir daí, em Copa do Mundo, a estatística para de funcionar — e entra em campo aquilo que nenhum comentarista consegue medir. A fé. A garra. E, quem sabe, uma cadeira com as pernas bem amarradas.
Que venha a Copa. E que venham as histórias que só ela sabe produzir.
Klécio Robert é advogado, contador e radialista. Colunista do Portal BR 135 e da Rádio Cultura do Gurgueia 91.9 MHz.
